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O julgamento do mensalão irá continuar, os condenados, condenados estarão,
perdidos que sempre estiveram, porque foi para isso que se montou a imensa
ilusão da AP 470: para condená-los. O inquérito sobre o mensalão fala por si só
sobre a questão. É a prova inequívoca de um esquema de caixa dois montado pelo
PT, explicitamente proibido pela legislação eleitoral, de modo a garantir
recursos para os pagamentos de campanha, em 2002. A investigação em si já é uma
condenação, e para isso foi pensada. Só foi possível de ser viabilizada pela
Polícia Federal porque, no breve momento de republicanismo proporcionado à
corporação no governo Lula, tornou-se, então, dever agir assim.
A partir
daí, eles fizeram do PT um Al Capone às avessas. Um mundo bizarro onde a máfia é
que dita à Justiça os termos do processo, a forma da ação e, se possível, as
penas. O castigo exemplar dos “mensaleiros”, essa marca de leproso criada pela
mídia venerada pelo reacionarismo nacional, um insulto a ser gritado em aviões
de carreira, em restaurantes, na rua, um permanente incentivo ao linchamento
moral e físico dos envolvidos para que todos tivessem certeza do que viria.
O partido havia cometido um crime, o de caixa dois, mas era preciso
encarcerar seus principais líderes por motivos muito mais graves. Por formação
de quadrilha, por exemplo. Consolidou-se a ideia dentro das classes dominantes,
portanto, de que seria possível fazer o Poder Judiciário realizar a façanha de
implodir o PT e acabar com a hegemonia eleitoral a tempo de eleger José Serra,
primeiro, em 2010, presidente da República; depois, em 2012, na capital
paulista, eleição ganha por Fernando Haddad, apesar de o julgamento do mensalão
no STF ter sido agendado meticulosamente de tal maneira a garantir sentenças em
série justo nos dias anteriores à votação do segundo turno. De tão descarado,
esse movimento da mídia de ostensiva proteção do establishment financista e
latifundiário, nos envergonha mais do que assusta. Um jornalismo de quinta, um
parente hediondo posto em casa ao qual fomos, até aqui, obrigados a aturar.
A vitória da tese dos embargos infringentes tem muitos significados
políticos interessantes. O principal deles, o fato de que eles
perderam.
A trama encadeada desde os primeiros anos do primeiro governo
Lula, entre 2003 e 2006, fez do mensalão um mantra maligno dito como oração em
ambientes tão diversos como o Clube Militar do Rio de Janeiro, renomado hospício
de ideias golpistas, e as manifestações de junho passado. Graças ao mensalão,
lideranças petistas históricas – José Dirceu e José Genoíno – poderiam ser
colocados sob ferros, com antes fizeram os golpistas propriamente ditos. E assim
foi feito.
Ocorre que Lula, outra vez, não estava acessível a eles,
apesar dos muitos esforços para incluir o ex-presidente na AP 470. Era preciso,
portanto, destruir seus companheiros. Colocar Dirceu dez anos na cadeia, e
Genoíno, seis. Torná-los exemplos desta dosimetria agendada pelo furor da mídia
e pela agenda da oposição, circunstância onde vieram se abrigar cenas
lamentáveis de juízes vociferando clichês moralistas como se moral jurídica
fossem.
Por uma dessas contingências muito raras, foi um conjunto de
regras do tribunal, e não a razão pura da lei, que fez o sistema acionar um
mecanismo de reequilíbrio alheio ao temor generalizado de um novo julgamento,
isso é ridículo. Um mecanismo para varrer os espinhos e anular a peçonha do show
de vaidades de onde vieram todas as mazelas do julgamento da AP 470.
Uma
forma que seis ministros do Supremo arranjaram para dizer que um juiz não pode
fazer Justiça sem zelar pela dignidade do processo, simples assim.
Então,
quando os termos da inquisição já estavam aparentemente fechados, a correção de
rumo feita pelos embargos infringentes fez ruir a sanha de certa matilha raivosa
espalhada pela mídia e pelas redes sociais. Lá, caçam “petralhas”, a submarca
mensaleira, num inusitado ambiente psicológico dentro do qual uma fantasia
pretende se impor a uma realidade histórica indestrutível, a de que, uma vez no
poder, os famigerados “petralhas” fizeram o primeiro ponto de inflexão social do
País desde o fim formal da escravidão, em 1888. Feito isso, e por isso mesmo,
estavam sendo obrigados a passar para a História como os demônios inventores da
corrupção.
O longo voto de Celso de Mello, sexto de mesma posição dentro
do STF, descontruiu o mito da invencibilidade da mídia e de seus perigosos
lacaios. Deu ao Brasil uma sensação de segunda chance muito além do julgamento
do mensalão. Foi um voto que trouxe ao processo uma nuvem de sensatez, mas foi
também uma mensagem do decano sobre os limites da insensatez.
E assim,
privado o Supremo do serviço ao ódio e à vingança, mesmo mantida as condenações,
ainda assim, eles perderam.
E duvido que consigam se recuperar tão
cedo.(Texto de Leandro Fortes*)
(*)Leandro Fortes: É jornalista, professor e escritor. Trabalhou
como jornalista para o Jornal do Brasil,
Zero Hora, O
Globo, Correio Braziliense, Estado de S. Paulo e Revista Época. Além de ter
sido chefe de redação da Agência Brasil,
da Radiobrás e comentarista da Voz do Brasil. É criador do
curso de jornalismo on line do Senac do Distrito Federal e professor da Escola Livre de Jornalismo.
Autor de diversos livros como: 'Jornalismo Investigativo', 'Cayman: o dossiê
do medo', 'Fragmentos da Grande Guerra' e mais recentemente 'Os segredos das
redações'. Atualmente é colunista da Revista Carta
Capital.
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