História em quadrinhos mostra Jesus punk

Que tal essa ideia para um reality show: cria-se um clone de Jesus, a partir de DNA tirado do Sudário de Turim (o pano que teria coberto o corpo de Cristo, deixando sua imagem gravada), faz-se um concurso para escolher a virgem que carregará o embrião, marca-se o parto para a noite de Natal de 2019 e, a partir daí, acompanha-se toda a vida do novo Cristo, numa espécie de "Show de Truman"?
Essa é a premissa de "Punk Rock Jesus", uma das mais elogiadas histórias em quadrinhos americanas do ano passado, que começou a ser publicada no Brasil pela editora Panini, dentro da revista "Vertigo" (o segundo capítulo está nas bancas).
Criada pelo americano Sean Murphy, 33, responsável pelo roteiro e pela arte, a HQ transforma a segunda vinda de Cristo em um reality show ("J2") para debater uma série de questões éticas ligadas a ciência, mídia e religião, todas as dúvidas, as implicações morais e comerciais, a histeria e a revolta que surgiriam no mundo a partir de um projeto deste tipo aparecem nas páginas da revista.
Os capítulos já lançados no Brasil mostram o começo da saga, que se inicia com a história de Thomas McKael, um católico irlandês que perde os pais ainda na infância e que, após um misterioso passado como membro do IRA (Exército Republicano Irlandês), torna-se segurança da emissora de TV Ophis, a responsável pelo projeto "J2".
Comandada pelo inescrupuloso Slate, a rede contrata a geneticista Sarah Epstein, que aceita participar do projeto em troca de financiamento para suas pesquisas anti-aquecimento global, e a ingênua Gwen Fairling, 18, a virgem que vai dar à luz Chris, o clone do Salvador (manipulado geneticamente para se parecer com o estereótipo de Jesus branco e de olhos azuis).
Quando chega à adolescência, Chris se revolta com o mundo artificial em que vive e com a exploração da religiosidade para fins comerciais, descobre o punk rock ,passa a ouvir Dead Kennedys, The Damned, Black Flag, corta o cabelo ao estilo moicano e passa a viver segundo o ideário do movimento.
Sean Murphy, um ex-católico que se tornou ateísta, disse que a inspiração para a história surgiu a partir da ascensão da direita católica radical no cenário político dos EUA, e do consequente acirramento dos ânimos no país. Em entrevista ao site Comic Book Resources, o criador da HQ disse que a história também mistura elementos autobiográficos.
"Durante minha evolução de católico a ateísta, passei por diversas fases, e muitos dos personagens representam isso. Por exemplo, há o guarda-costas que é católico praticante, a cientista que é centrada na lógica, e a mãe do clone, que é uma vítima emocional na maior parte da história", disse Murphy.
Desenhada em preto e branco para criar um visual "indie/underground", segundo o autor, a HQ tem capítulos que remetem a episódios bíblicos (como "Gênesis" e "Êxodo") e, além dos dilemas morais, tem uma história pontuada por momentos de humor, cenas de ação e surpresas na trama.

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